terça-feira, novembro 22

ARTIGO PUBLICADO NO PRIMEIRO DE JANEIRO

Artigo, da minha autoria, no Jornal O Primeiro de Janeiro, do dia 15/11/2005


MOSCADEIRO

A(s) FRANÇA(s)

Nos últimos dias temos sido relembrados, por sinais vindos da França, de que toda a nossa sociedade está eivada de forças poderosas que retêm o que o mundo produz, para nada dar àqueles que são os destruídos e recusados pela minoria que detém os poderes. Aliás, o “dar” nem sequer será correcto, mas sim o distribuir os bens por todos, à medida da necessidade de cada um. E todos nós somos responsáveis, por vivermos a imponderação das nossas consciências.

A França é o país campeão da Igualdade, Fraternidade e Liberdade, onde os ventos de Maio de 1968, varreram por completo a Europa, dando-lhe um carácter de sublevação e que se traduziu num poderoso movimento que chegou a Portugal pela crise académica de 1969, e foi, sem dúvida, um prenúncio, de que a ditadura em Portugal tinha os dias contados. Tudo o que se passa em França, deve ser sujeito a um criterioso estudo e reflexão, porque são presságios do que por cá poderá acontecer. Aliás, não é por acaso que o movimento, sem chefes, já tem ramificações na Holanda, Bélgica, Grécia e Alemanha. Então a nossa predisposição não deverá ser, só, de conferir uma segurança que esteja disposta ao combate à violência, mas a da compreensão dos fenómenos que ditam este desencanto na vida, por tantos jovens, que já nada têm a perder e encontram na afronta a única alternativa de dizerem ao mundo que existem, enquanto mulheres e homens, que querem um sentido, negado e repudiado por todos aqueles que fazem do seu ser, a incapacidade de serem fraternos, no banquete pela dignificação da pessoa humana, pela con-criação a que somos chamados, desde tempos infindos, e, para nós, numa inculturação baseada nos princípios adâmicos.

Não temos qualquer dúvida que, quando jovens de 14 anos, incendeiam automóveis, autocarros, escolas e outros edifícios estamos perante uma rebeldia sem limites, a que é necessário pôr cobro, e é difícil consentir que as forças de segurança o não tenham feito, diria é mesmo impensável; mas o fundamental é saber as causas destes desesperados actos, e onde uma sociedade baseada fundamentalmente em combates sem tréguas a défices, não desperta para a realidade que é culturalmente amarfanhada, movimentando-se numa espécie de integração em valores que não reconhecem como seus, em vez de serem usufrutos duma vivência traduzida em inculturações, que longe de sufocarem hábitos e crenças, as solidifica e tradu-las para o bem das pessoas. A revolta tem como primeira leitura os bairros degradados e as condições de vida abjectas, mas ela é, sobretudo, de natureza cultural e vivencial. Sem dúvida, que jovens a quem é negada a educação, a formação, o emprego, a intelectualidade, o serem de uma família, porventura, não cosmopolita com o país que escolheram para viver, nada tendo a perder, como já referi, são um barril de pólvora, mas contra as injustiças criadas por quem detém os poderes económicos, culturais e sociais. E é aqui que residem as causas de tal violência. Estes jovens são descendentes de quem deu o seu trabalho pelo engrandecimento, neste caso da França, por quem dobrou o seu esforço por trabalhos que os naturais não queriam fazer, e agora encontram-se em becos sem saída, daí que não seja de admirar que ataquem os símbolos de um poder, que para si é demoníaco.

Não será de admirar que esta onda de violência se torne incontrolável e chegue a outros países; em Portugal, à sua escala, certamente estes diferendos terão o seu tempo, e está na hora do dia que aconteçam. Não sei se as forças portuguesas de segurança vão ser mais eficazes, mas isso contorna o problema, não o resolve, porque ele é de princípios universais de dignidade humana e não de repressão. Onde se abate uma violência, não se pressupõe que outra não acorde noutros locais, e a questão não está nas expulsões destas pessoas, porque nós somos uma aldeia globalizada e a expulsão só colocará num outro espaço, onde nascerão novas violências, estes jovens. Os imigrantes ou emigrantes, são seres situados e como tal vivências comunitárias que ou respeitamos e tratamos como iguais, ou estamos a semear outras irascibilidades violentas.

È assim à escala de cada cidade, de cada concelho, de cada bairro, que devem ser vistas as dificuldades e o debate da prática a seguir, com eles, e não sem eles, como se fossemos os protagonistas únicos da história. E não somos! Com todas as contradições ainda a Europa há-de ser o continente da esperança, numa confusão de raças e crenças, de sermos todos iguais, nas diferenças particulares enriquecedoras da humanidade. Em cada bairro deste concelho da Maia, terá, também, de estar presente esta novidade da convivência, na justiça, de muitos que querem viver felizes. O seu governo não pode, seria um erro político imperdoável, consentir que se pense que a França fica muito longe, não, porque esta França, não é singular, ela são as francas-bomba prestes a rebentar, por simpatia, em cada parte desta terra, e também na Maia.

Sempre, que aqui, se comete uma injustiça, semeia-se a violência: seja esta a mensagem em que cada maiato deverá reflectir.

Joaquim Armindo

Membro da Comissão Política do PS/Maia

jarmindo@clix.pt

http://www.bemcomum.blogspot.pt

Escreve esta coluna quinzenalmente.

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