sábado, janeiro 1

A MENSAGEM DE LISBOA - TAIZÉ

Um Futuro de Paz

Esta carta, escrita pelo irmão Roger de Taizé, traduzida em 55 línguas (24 da Ásia), foi publicada aquando do Encontro Europeu de Jovens em Lisboa. Será retomada e meditada durante todo o ano de 2005 nos encontros de jovens que se realizarão em Taizé, semana após semana, ou noutros locais, na Europa ou noutros continentes.

«Deus tem para vós desígnios de paz e não de calamidade; Deus quer dar-vos um futuro e uma esperança.»1
Inúmeros são aqueles que aspiram hoje a um futuro de paz, a uma humanidade livre das sombras da violência.
Se há quem, tomado pela inquietação face a um tempo incerto, se quede ainda imobilizado, há também, por todo o mundo, jovens cheios de vigor e de criatividade.
Esses jovens não se deixam arrastar por uma espiral de melancolia. Sabem que Deus não nos criou para sermos passivos e que a vida não está submetida aos acasos da fatalidade. Estão conscientes disto: o que pode paralisar o ser humano é o cepticismo ou o desânimo.
Por isso, procuram, com toda a sua alma, preparar um futuro de paz e não de infelicidade. Mais até do que supõem, eles conseguem já fazer de suas vidas uma luz que ilumina tudo à sua volta.
Alguns deles levam a paz e a confiança aonde existem perturbações e antagonismos. Perseveram mesmo quando as contrariedades e as provações pesam sobre os seus ombros.2
Em Taizé, em certas noites de Verão, sob um céu repleto de estrelas, ouvimos os jovens das nossas janelas abertas. Surpreende-nos serem tão numerosos. Vêm para procurar e para rezar. E pensamos: as suas aspirações à paz e à confiança são como estas estrelas, pequenas luzes a iluminar a noite.
Vivemos num período em que muitos se interrogam: o que é a fé? A fé é uma confiança muito simples em Deus, um indispensável impulso de confiança, permanentemente retomado ao longo da vida.
Em cada um de nós, pode haver dúvidas. Elas não têm nada de inquietante. Queremos sobretudo ouvir Cristo murmurar nos nossos corações: «Tens hesitações? Não te inquietes, pois o Espírito Santo permanece em ti.» 3
Há quem tenha feito esta descoberta surpreendente: o amor de Deus pode também desabrochar num coração marcado pela dúvida.4
Uma das primeiras palavras de Cristo no Evangelho é: «Bem aventurados os pobres em espírito!» 5 Sim, feliz daquele que avança para a simplicidade, a do coração e a de uma vida. Um coração simples esforça-se por viver o momento presente, acolhendo cada dia como um hoje de Deus.
Não transparece o espírito de simplicidade na felicidade serena e também na alegria?
Um coração simples não tem a pretensão de compreender sozinho tudo o que diz respeito à fé. Mas pensa: aquilo que não entendo bem, outros o compreendem melhor e esses ajudam-me a prosseguir caminho.6
Simplificar a vida permite partilhar com os mais carenciados, de forma a aliviar a dor, onde quer que exista doença, pobreza, fome…7
A nossa oração pessoal procurará ser simples também. Julgamos que para rezar são necessárias muitas palavras?8 Não. Na verdade, bastam poucas palavras, por vezes desajeitadas, para entregar tudo a Deus, tanto os nossos medos como as nossas esperanças.
Abandonando-nos ao Espírito Santo, encontramos o caminho que da inquietação conduz à confiança.9 E dizemos-lhe: «Espírito Santo, ajuda-nos a voltarmo-nos para ti a todo o momento. Esquecemo-nos tantas vezes que tu habitas em nós, que rezas em nós, que amas em nós. A tua presença em nós é confiança e perdão sempre oferecido.»
Sim, o Espírito Santo acende em nós uma luz. Mesmo que pareça fraca, ela desperta nos nossos corações o desejo de Deus. E o simples desejo de Deus já é oração.
A oração não nos afasta das preocupações do mundo. Pelo contrário, não há nada de mais responsável que a oração: quanto mais vivermos de uma oração muito simples e humilde, mais somos levados a amar e a expressar o amor através da nossa vida.
Onde encontrar a simplicidade indispensável para viver o Evangelho? Uma palavra de Cristo esclarece-nos. Um dia, disse aos seus discípulos: «Deixai as crianças vir ter comigo, pois delas é o Reino do Céu.»10
Quem poderá traduzir adequadamente o que algumas crianças conseguem transmitir através da sua confiança?11
Gostaríamos então de pedir a Deus: «Deus que nos amas, faz-nos humildes, dá-nos uma grande simplicidade na nossa oração, nas relações humanas, no acolhimento do outro…»
Jesus Cristo veio à terra não para condenar, mas para abrir aos homens caminhos de comunhão.
Há dois mil anos Cristo permanece presente através do Espírito Santo,12 e a sua presença misteriosa torna-se concreta numa comunhão visível13: ela reúne mulheres, homens, jovens, chamados a avançar juntos sem se separarem uns dos outros.14
É verdade que ao longo da história, os cristãos conheceram múltiplos abalos: surgiram separações entre os que, afinal, se referiam ao mesmo Deus de amor.
Restabelecer a comunhão é hoje urgente, não se pode adiar permanentemente até ao fim dos tempos.15 Será que fazemos tudo para que os cristãos despertem para o espírito de comunhão?16
Há cristãos que, sem mais demoras, vivem já em comunhão uns com os outros onde quer que estejam, muito humildemente, de forma muito simples.17
Através da sua própria vida, desejam tornar Cristo presente a muitos outros. Sabem que a Igreja não existe para ela própria mas para o mundo, para depositar nele um fermento de paz.
«Comunhão» é um dos mais belos nomes que a Igreja tem: nela, não pode haver severidades recíprocas, mas só transparência, bondade do coração, compaixão… e assim se conseguem abrir as portas da santidade.
No Evangelho, podemos descobrir esta realidade surpreendente: Deus não provoca nem medo nem inquietação, Deus só pode amar-nos.
Pela presença do seu Espírito Santo, Deus vem transfigurar os nossos corações.
E através de uma oração muito simples, podemos pressentir que nunca estamos sós: o Espírito Santo é em nós o amparo de uma comunhão com Deus, não apenas por um instante, mas até à vida que não tem fim.
(1) Estas palavras foram escritas seiscentos anos antes de Cristo: ver Jeremias 29,11 e 31,17.
(2) Neste ano em que dez novos países se juntaram à União Europeia, muitos jovens europeus estão conscientes de que vivem num continente que, tendo sofrido por muito tempo divisões e conflitos, procura a sua unidade e avança no caminho da paz. Ainda há, certamente, tensões, injustiças, por vezes violências, que suscitam dúvidas. É preciso não parar no caminho: a procura da paz está na própria origem da construção da Europa. Mas esta não nos interessaria se tivesse como única finalidade criar um continente mais forte, mais rico, e se a Europa cedesse à tentação de se fechar dentro das suas fronteiras. A Europa torna-se plenamente ela própria quando se abre aos outros continentes, solidária com as nações pobres. A sua construção encontra sentido como patamar ao serviço da paz de toda a família humana. Eis a razão pela qual, se o nosso encontro de fim de ano se chama «Encontro Europeu», gostamos ainda mais de o considerar como uma «peregrinação de confiança através da terra».
(3) Ver João 14,16-18 e 27. Deus existe independentemente da nossa fé ou das nossas dúvidas. Deus não se afasta por causa das nossas dúvidas.
(4) Dostoïevski escreveu um dia nos seus Cadernos de Notas: «Sou um filho da dúvida e da descrença. Que terrível sofrimento me causou e ainda me causa esta sede de acreditar, que é tanto mais forte na minha alma quanto mais existem em mim argumentos contrários… Foi através da fornalha da dúvida que passou o meu ‘hossana’.» E, contudo, Dostoïevski podia continuar: «não há nada de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito que Cristo; e não só não há nada como não pode haver.» Quando este homem de Deus deixa pressentir que o incrédulo coexiste nele com o crente, o seu amor apaixonado por Cristo não fica por isso diminuído.
(5) Mateus 5, 3.
(6) Mesmo se a nossa confiança continua frágil, não nos apoiamos apenas na nossa própria fé, mas na confiança de todos aqueles que nos precederam e dos que nos rodeiam.
(7) O Programa alimentar mundial da ONU publicou recentemente um mapa da fome no mundo. Apesar dos progressos conseguidos nestes últimos anos, 840 milhões de pessoas passam fome, das quais 180 milhões são crianças com menos de cinco anos.
(8) Ver Mateus 6,7-8.
(9) Este caminho de abandono a Deus pode ser apoiado por cânticos simples, retomados repetidamente, como este: «Só em Deus descansa em paz a minha alma.» Quando trabalhamos, quando descansamos, estes cânticos permanecem dentro do coração.
(10) Mateus 19,14.
(11) Um rapaz de nove anos, que durante uma semana vinha rezar perto de nós, disse-me um dia: «O meu pai deixou-nos. Nunca o vejo mas continuo a amá-lo e à noite rezo por ele.»
(12) Ver 1 Pedro 3,18; Romanos 1,4 e 1 Timóteo 3,16.
(13) Esta comunhão tem o nome de Igreja. No coração de Deus, a Igreja é una, não pode estar dividida.
(14) Quanto mais nos aproximamos do Evangelho, mais nos aproximamos uns dos outros. E caiem as separações que tanto magoaram.
(15) Cristo pede que nos reconciliemos sem tardar. Não podemos esquecer a sua palavra no Evangelho de S. Mateus: «Se fores apresentar uma oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai primeiro reconciliar-te» (5,23). «Vai primeiro» e não: «Deixa isso para mais tarde».
(16) Em Damasco, nesse Médio Oriente que tanto sofre, reside o Patriarca Ortodoxo grego de Antioquia, Inácio IV. Ele exprime-se com palavras impressionantes: «O movimento ecuménico está a regredir. O que resta do acontecimento profético do início e que personalidades como o Papa João XXIII e o Patriarca Atenágoras, entre outros, incarnaram? As nossas divisões tornam Cristo irreconhecível, são contrárias à sua vontade de que sejamos um, ‘a fim de que o mundo acredite’. Precisamos urgentemente de iniciativas proféticas para fazer sair o ecumenismo dos meandros nos quais receio que se esteja a atolar. Precisamos urgentemente de profetas e de santos, a fim de ajudar as nossas Igrejas a converter-se através do perdão recíproco.»
(17) Aquando da sua visita a Taizé a 5 de Outubro de 1986, o Papa João Paulo II sugeriu uma via de comunhão dizendo à nossa comunidade: «Ao quererem ser vós mesmos uma ‘parábola da comunidade’, ajudareis não só todos aqueles que encontrais a serem fieis à sua pertença eclesial, que é o fruto da sua educação e da sua escolha de consciência, mas também a penetrar cada vez mais profundamente no mistério de comunhão que é a Igreja nos desígnios de Deus.»

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